Sunday, June 25, 2006

Conversa com a tia Ofélia

Tia Ofélia antes de me ir embora quero dizer-lhe que penso casar com a Daniela. Com quem vives há dois anos, suponho. Sim, mas... tenho medo. Medo? sim medo, bem vê um laço definitivo... Definitivo,... definitiva é a morte. Meu filho há lá alguma coisa definitiva neste mundo. Agora na vida, ou se aposta ou não, ou se arrisca até parecer loucura, ou não vale a pena viver. E no amor isto ainda é mais radical: dá-se corpo, alma e o mais relevante para mim- a intimidade. O meu pudor passava essencialmente por aí. Soube que amava o José, quando pela primeira vez na vida (e já namoriscara alguns) senti que poderia comungar com ele a minha intimidade. Entendes isto? Entendo, mas, ....mas, mas o quê? Quando estava apaixonada poderia lá entrever um fim? Mesmo durante o namoro em que para além da paixão acrescentei o respeito pela sua personalidade, o prazer do seu cheiro ( e era tão bom o seu cheiro), de andar de mãos dadas com ele, de conversar com ele, de passear com ele, é óbvio que também não via fim algum. Depois do casamento tivemos momentos exaltantes, não te rias meu malandro, mas também muitas adversidades: o dinheiro era pouco, a primeira casa manhosa, e o mais desgastante: as angústias profissionais do José. Meu filho nem queiras saber! Fazia e refazia contas quando lhe entregavam o projecto de uma casa. Como engenheiro civil ele estava sempre à espera que a casa caísse, de forma que os cálculos para ele e para nós eram um desatino: fechava-se no escritório e ali estava horas e horas a fio com a máquina calculadora truz truz para a frente truz truz para trás. Sabes como eram aquelas máquinas mecânicas antigas? Sim tia o meu pai tinha uma. Se alguém o interrompia levava cá um berro...Quando estava descontraído então falava , falava, adorava que eu largasse tudo para o ouvir e eu muitas vezes o fazia, porque era um prazer ouvi-lo. Depois vieram o Pedro e a Ana. O Pedro era asmático, depois da puberdade graças a Deus entrou em remissão, aquilo era médico todas as semanas, noites seguidas de vigília quando ele tinha falta de ar, os nervos estavam à flor da pele e às vezes havia zangas e até palavras duras que magoavam. A Ana pequenina tinha ciúmes das atenções que dávamos ao mais velho e então de vez em quando desatava a fazer asneiras que nos pareciam propositadas, desde abrir gavetas e despejar tudo o que estava lá dentro para o chão, fazer cócó fora da sanita, dar pontapés às bonecas de que ela mais gostava, enfim não foi nada fácil. Depois descobri mais tarde que me sentia atraída por outros homens. Achei bizarro em princípio, porque me sentia satisfeita com " o meu homem", não fazia sentido. Estarei a separar-me intimamente do José? Mais tarde percebi que ter desejo é normal: basta ser sexuado. Reparava também que ele lançava alguns olhares concupiscentes para o rabo e pernas de algumas, e, no entanto, na prova dos nove, e o sorriso maroto voltou a soltar-se-lhe, continuávamos a passar com a mais elevada classificação. Riu.
Mas que deu ao Tomás para ladrar assim. Foi à janela e gritou Tomás que se passa está quieto olha para ele, dá saltos ali junto ao muro, ajuda-me meu filho que os meus olhos já me atraiçoam o que se passa? Alguém vai a passar junto ao renque de árvores lá em baixo aí a uns cem metros do muro e ele deve tê-lo pressentido. Está quieto Tomás acalma-te ah! o diabo deste cão que ainda tem faro de jovem! Mais um presente do Amilcar o meu irmão mais novo . Quando se separou da mulher vendeu a vivenda onde morava, comprou um T1 que lhe chegava muito bem e pediu-me para trazer o cão para aqui. Este rafeiro tem inimizades de estimação e o Virgolino, o que me vem arranjar o jardim, é uma delas. Ele não gosta de cães, o Tomás percebeu e então é uma embirração permanente: vai-te embora vadio, diz um, ão-ão-ão responde o outro, enfim eu que os ature. Mas ó tia chamar Tomás a um cão?!... Tens razão, o nome primitivo dele era Shift, era esse o nome que ele trazia. Mas como veio para cá cachorro, disse para mim; nã, nã, não hás-de ficar com um nome que cheira a ingleses. Olhei para ele e vi o Almirante Américo de Deus Tomás, o último presidente do Estado dito Novo, não me perguntes porquê, e comecei a chamá-lo assim e ele pelos vistos gostou, pois atende ao chamamento. Além do mais deve ser reaccionário, pois rosna quando ouve a Grândola Vila Morena . Deu uma sonora gargalhada. E o diabo do cão que não se cala! Deixe lá o cão e vamos ao que estávamos a falar, Ah! pois claro está bem onde é que eu ia. Já me lembrei, não te maces.
Um dia em que o teu tio foi para a pesca, ele nunca ia ao fim de semana era sempre em dia de semana, levantava-se aí às três da manhã, agarrava naquele instrumental de canas, carretos, anzois, engodos, enfim eu nunca fui à bola com aquele"desporto", desculpa esta maneira de falar, lembro-me bem era Agosto, eu já estava de férias mas ele ainda tinha um trabalho para apresentar, fiquei sozinha na sala (o Pedro e a Ana estavam a passar uns dias na casa de amigos, já eram crescidotes), olhei em redor e compreendi. Estava furiosa com ele já nem sei bem porquê, se calhar eu estava num daqueles dias em que me passou pela cabeça sair, fugir, ir não sei para onde, enfim um dia mau, mau mesmo, daqueles dias em que não vemos senão tudo negro e a alma está carregada de aflição, nesse dia, naquele momento, olhei para a sala onde estava sentada e reparei em todos aqueles adornos, desde fotografias a quadros, jarras, livros, pequenos objectos dos mais variados tamanhos e feitios que não tinham qualquer utilidade que não fosse estarem ali a lembrar que tinham sido comprados em tal data , em tal sítio e que me davam um trabalhão a limpar, olhei precisamente para uma fotografia do teu tio quando começámos a namorar e de repente tive a resposta a uma pergunta que há muito fazia: porque gosto tanto desta casa se ela me dá tanto trabalho e às vezes me apetece mandá-la para um sítio que eu cá sei? Eu gosto desta casa, porque esta casa é nós. Tinha sido decorada com o nosso gosto, o nosso esforço, o nosso afecto, os nossos filhos, os convívios com amigos que ali tinham decorrido. Quando cuidava dela, não estava somente a lustrar o móvel da tia Joaquina que mal conhecera, ou o aparador da avó do José que nunca vira gorda ou magra senão em fotografia, ou mesmo de peças que tinham algum valor em si e compráramos com sacrifício. Não. Aqueles objectos valiam porque eram nossos. Estava ali a nossa vida. Eu penteava aqueles adornos com desvelo, como beijava o meu marido, acariciava os meus filhos ou apreciava o meu rosto ao espelho. Eu de certo modo honrava aquela casa porque nela estava contida a minha vida no esplendor e na tristeza e nos desgostos também, mas que sempre me acolhera, como uma mãe ou um pai acolhem um filho pequeno que lhes abre os braços com vontade de mimo. Eu amava aquela casa principalmente por ela ser Ofélia e José, tal e qual. Nós cuidávamos dela, ela retribuía com bem estar. Era uma construção permanente que valia a pena continuar. Penso que quem "põe" uma casa seja casado ou solteiro sente qualquer coisa de semelhante. Empresta muito de si próprio ao espaço que ocupa. Mas naquele tempo uma "menina" só podia sonhar em ter a sua casa em comunhão com o marido. E eu fi-lo sem sacrifício algum, pelo contrário. Agradeço a Deus ter tido uma educação que me permitiu fugir aos namoros fingidos, sempre com espias por perto, fossem mamãs, maninhos, tias ou outros intrusos do género. A juventude de hoje nem imagina como eram esses tempos. Os meus pais eram classe média, deram-me um curso superior, muito invulgar para o tempo, e nunca acreditaram em virgindades guardadas pelo medo. E esta liberdade permitiu-me conviver com o José.
Mas que tem a casa a ver com a sua relação amorosa, tia? Era isso, era isso que eu te queria dizer, nesse dia compreendi que cuidar de um amor é como cuidar de uma casa. Lembrei-me de Ricardo Reis e do final da primeira estrofe-(Enlacemos as mãos)- da Ode Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. O que tínhamos feito ao longo daqueles anos de existência era enlaçar as mãos para além dos melindres mais profundos, dos êxtases, das palavras doces ou amargas, das conquistas ou dissonâncias. Tínhamos conseguido cuidar "desta casa" com desvelo, portanto
podíamos continuar juntos. E assim foi mesmo na doença e depois na morte dele.
Nada há que seja definitivo. Nada. E nós tivemos que lutar para manter viva a nossa relação. Fácil, desconfia de relações que pareçam fáceis e muito delicodoces, desculpa lá esta expressão que é do meu tempo. Sabes eu até acho que uma relação amorosa deve ser viril, é como se diz no futebol, não é ?! assim com um pouco de agressividade, não faz mal nenhum. O resto, a ternura, o diálogo, boas pitadas de paixão, são obrigatoriamente necessárias. Agora ou te apetece lutar por aquela companhia e então ama-la, ou a deixas cair e lá se vai o"definitivo" de anos atrás.
Tia Ofélia parou, respirou fundo, parecia cansada mas afinal sorriu, olhou para o céu e exclamou: Menino, se tem que se ir embora hoje, é partir já, que vêm ali núvens bem carregadas.
Espero boas notícias e piscou-me o olho.

7 Comments:

Blogger manuel said...

Aos amigos que por aqui têm passado, agradeço a vossa participação, comentando.
Não estranhem que nas próximas duas semanas não apareça, pois vou para férias que já mereço.
Mas não deixem de comentar.
Até breve.

10:12 PM  
Blogger Rosmaninho said...

Que grande conversa com a tia Ofélia, Manuel!

Sabe bem conversar com quem tem tanto para dizer e aconselhar.

Tal como a tia Ofélia sorrio...não fiquei cansada com a conversa:).

Boas Férias e...

~*Um beijo*~

11:35 PM  
Blogger alfazema said...

Boas férias, Manuel! Continuarei a passar por aqui e a deixar umas palavrinhas para o amigo que me visita. Ter uma tia assim é muito bom. Cada vez há menos pessoas que gostam de nos ouvir e falar/ aconselhar porque ouviram. Todas as relações têm altos e baixos. Não há nenhuma, por mais que o afirmem, que as não tenham.
Um beijo

4:44 AM  
Blogger Ritinha said...

estou de volta à blogosfera! finalmente acabei os exames! obrigada pelo teu comentario lá no meu blog!

beijinhos

2:49 PM  
Blogger bonifaceo said...

Compridote. Mas como era uma boa história nem custou. Só é pena é estar tudo seguido, mas até dá para distinguir bem quem é quem no diálogo, o pior é quando há narrador. :D

Vai pela tua tia, falou bem, falou a voz da experiência.
Um abraço e boas férias.

2:39 AM  
Blogger nunocavaco said...

Quando as tias querem ajudar pelo menos devemos ouvir.
Abraço

12:02 AM  
Blogger Lowprofile said...

Lindo!
Nada mais enriquecedor do que aprender com as vivências e experiências de vida daqueles de quem gostamos.
O conselho está subjcente a toda a história da Tia Ofélia, mas tb confesso que assusta um pouco essa tomada de decisão...
Já agora,Boas férias :)

3:54 AM  

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