Saturday, June 10, 2006

Dez de Junho

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
E em perigos e guerra esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Esta estrofe resume aquilo que mais marca para mim a capacidade do português: o espírito de aventura e da descoberta, a atracção pela novidade, a vontade de correr riscos no limite do conhecimento técnico e no desassombro perante o desconhecido. E para além de tudo isto o Mar, esse imenso espaço cheio de imprevistos, esse imenso alfobre de seres tão diferentes dos da "terra", mas também esse desafiador da nossa imaginação quando, na praia o vemos convergir no horizonte com o Céu e nos preenche todo o campo visual.

Fomos e somos assim sedentos de aventura, orgulhosos por vezes por nos sentirmos diferentes dos outros povos europeus na história, mas frágeis quando nos apercebemos da nossa pequenez.E esta nossa fragilidade resvala facilmente para a descrença em nós próprios, para o desânimo e mesmo para ideias suicidas. Uma muito corrente é essa de que foi uma asneira o 1640. A preguiça é uma boa desculpa para a miséria nacional. Somos porreiros lá fora. Aqui somos lamurientos, indisciplinados, egoístas, não cooperantes. Enfim somos calorosos, ternurentos e por aqui nos ficamos.
O ditador Salazar ajudou a este sentimento de incapacidade ao não acreditar nos portugueses e na liberdade. Retirou-nos projecção ao querer-nos orgulhosamente sós e pobres. Foi um guardião do Templo, sem dúvida, mas de um templo vocacionado para a lembrança do passado e sem perspectiva de futuro que não fosse somente garantir o património imperial.

O nosso património essencial somos nós. E é esse Nós que eu celebro hoje, esperançado que se possa valorizar cada vez mais em saber e espírito empreendedor, agarrando do passado a energia para fazer deste recanto um país e não uma manta de retalhos do melhor e do pior que se pode fazer em urbanismo, civilidade e gestão de recursos humanos.

Gosto imenso de futebol, o meu clube é a selecção nacional, mas o nosso orgulho e valor não pode ser carambolado somente numa bola por onze jogadores num relvado.

Mas não deixarei de estar amanhã em frente ao televisor a gritar pela selecção. E acompanhado por malta nova, amigos dos meus filhos.

12 Comments:

Blogger Crymynoso Compulsyvo said...

Realmente Portugal é muito mais que futebol. Mas ás vezes nem parece. Eu tb gosto de futebol, mas... O blog tá fixe.

8:32 PM  
Blogger amigona said...

Então bom jogo, Manuel!
Abraço...

10:54 PM  
Blogger Som do Silêncio said...

Vais estar tu, eu, e milhares de pessoas...é impossível resistir!
Parabéns pelo blog.

12:42 AM  
Blogger Rosmaninho said...

O Mar!

Temos Tudo, nesta Ocidental praia lusitana...
A Esperança que Nós seremos um povo disciplinado, cooperante, capaz... continua em mim.

Gosto do desporto chamado futebol, daquele que é jogado com amor à camisola.

Hoje Nós vemos a selecção!

~*um beijo*~

11:55 AM  
Blogger Som do Silêncio said...

Obrigada pelas simpáticas palavras que me deixaste.
:-)
Beijinho

1:26 PM  
Blogger Belzebu said...

Excelente visão deste nosso Portugal! Que nos surpreende, nos desilude, nos fascina, nos mal-trata e contudo nos une sempre, ainda que seja á volta de um relvado, durante 90 minutos!

Saudações!

7:09 PM  
Blogger JL said...

Concordo com o que dizes. Em relação a 1640 também sou da opinião que a culpa foi do D. Afonso Henriques :-).

E, também eu, estarei em frente ao televisor a torcer por Portugal.

7:25 PM  
Blogger Tons Pastel said...

...fomos, somos e continuaremos a ser um país de aventureiros,de apaixonados por esse mar salgado que temos mesmo aqui à nossa frente. E quando a aventura acabar que não se acabe a capacidade de sonhar.veja o mundial com os filhos, os amigos dos filhos e torça, torça sempre por este nosso cantinho..
um abraço

2:06 PM  
Blogger bonifaceo said...

Embora reconheça que temos defeitos, isso costuma-me passar ao lado, adoro o meu país, apesar de não gostar por exemplo dos governantes.
Já agora, "asneira 1640"? E jl, D. Afonso Henriques? Coitado do homem, morto e enterrado aos séculos, se calhar queriam dizer 1140... :D. Ai essa História nacional...
Um abraço.

12:49 AM  
Blogger bonifaceo said...

Ok, ok. 1640 foi a restauração da Independência, a 1 de Dezembro.
O Tratado de Zamora em 1143 :D.

12:55 AM  
Blogger Tons Pastel said...

...há quem diga que isto nasceu torto e tarde ou nunca se endireita. Eu não entro nessa apesar de ter nascido no país do fado. Eu acredito que somos capazes de modificar o nosso destino, de uma regeneração, assim nos saibamos unir e lutar por este cantinho que tanto custou a ganhar. Saibamos honrar os nossos antepassados fazendo o que eles fizeram, sem lamuriarmos esse disparate do 1640, e levantemos os braços para que as gerações futuras se orgulhem de nós.

2:52 PM  
Blogger poca said...

sim podíamos ser mais... Portugal poderia ser melhor...
o Salazar, como pode a culpa ser dele de Portugal estar como está e dos Portugueses estarem como estão... se eu não conheci o senhor... e tantos como eu!
a culpa está em todos nós, que nos queixamos e que acabamos sempre alguém em quem pôr as culpas para nos desculpabilizarmos a nós próprios... a culpa é nossa quando nos nos acomodamos às coisas com as quais não concordamos, a culpa é nossa porque tantas vezes pensamos somente no nosso umbigo...
Portugal não está bem, isso reconheçemos todos...
O Portugal de camões era bem mais valente, não era?
E agora? Fazer o quê?

(desculpa por não concordar contigo na ideia do salazar, mas olha que eu já tenho pensado que isto há liberdade a mais e pouco respeito e um bocadinho de salazar não nos fazia mal nenhum...)

beijinhos e bom fim de semana

1:58 PM  

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